Textos

Arthur Arnold

por Fabrício Reiner

A pintura de Arthur Arnold investiga o modo como a presença individual se altera ao ingressar numa coletividade. Multidões, agrupamentos familiares e pequenos círculos sociais aparecem como estruturas capazes de reorganizar a figura humana e a própria superfície pictórica. Em suas obras, os corpos são submetidos a outra ordem de percepção, na qual a individualidade permanece parcialmente reconhecível enquanto começa a ser absorvida pela massa.

Essa pesquisa resulta de um percurso no qual a reflexão sobre o poder se desloca progressivamente da representação de personagens dominantes para os mecanismos menos evidentes de conformação coletiva. Em trabalhos anteriores, o artista recorria ao humor, ao absurdo e à metáfora visual para desestabilizar simbolicamente figuras de autoridade. Posteriormente, o poder deixa de aparecer apenas como atributo de um personagem e passa a ser observado nas relações entre os indivíduos, na adesão aos grupos, na necessidade de pertencimento e na pressão que a coletividade exerce sobre cada corpo.

Nascido no Rio de Janeiro, Arthur Arnold graduou-se em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 2008. Durante esse período, realizou intercâmbio na Bauhaus-Universität Weimar, em 2007, e, mais tarde, frequentou o curso de pintura de João Magalhães na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Sua formação foi ampliada pelas residências artísticas no Red Bull Station, em São Paulo, em 2014, e no Gastatelier Gleis 70, em Zurique, em 2017. Esse percurso consolida uma prática profundamente comprometida com os problemas internos da pintura, mas também atenta às formas sociais pelas quais os indivíduos se reconhecem, se agrupam e têm sua autonomia modificada.

Entre suas exposições individuais estão A Fragilidade do Poder, de 2012, Estado de Sítio, de 2014, Massas, de 2018, e Em meio à multidão me perdi de mim mesmo, apresentada no Sesc Santana em 2019. Recebeu prêmios no III Concurso de Arte Contemporânea do Itamaraty, em 2013, e no Arte Pará 35, em 2016. Suas obras integram coleções como as do Museu de Arte do Rio, do Itamaraty e da Universidade Candido Mendes. Mais do que uma sucessão curricular, essa trajetória evidencia a continuidade de uma questão: como representar o indivíduo quando sua identidade já não pode ser separada das forças coletivas que o constituem?

Na sua pintura, essa questão emana da própria matéria. Espatuladas espessas, raspagens e pinceladas pontuais fazem com que os corpos oscilem entre imagem e substância pictórica. Vistos de perto, perdem nitidez e convertem-se em empastes, ritmos cromáticos e acidentes da superfície. Observados à distância, recompõem-se como multidões, reuniões ou cenas familiares. A mudança de escala do olhar altera o estatuto das figuras: ora indivíduos, ora partes de um organismo visual que parece excedê-los.

A passagem entre reconhecimento e abstração não ocorre, portanto, pela eliminação da figura humana, mas por sua condensação material. Quanto mais os corpos se acumulam, menos cada um se oferece como unidade autônoma. Em contrapartida, o conjunto adquire densidade, ritmo e força. A abstração surge no interior da própria figuração, produzida pela repetição, pela compressão espacial e pelo espessamento da matéria. O corpo não desaparece, mas deixa de ser o centro absoluto da imagem.

O emprego da argamassa radicaliza essa investigação. Associado à construção, ao revestimento e à consolidação de superfícies, o material confere aos agrupamentos uma presença espessa, quase arquitetônica. A argamassa permite que a massa humana e a massa pictórica participem de uma mesma configuração: os indivíduos tornam-se unidades materiais da estrutura, enquanto a coletividade parece solidificar-se sobre a superfície.

Essa correspondência entre tema e procedimento é uma das singularidades de sua produção. O que poderia permanecer como metáfora social adquire uma formulação concreta na superfície. Os corpos são comprimidos, sobrepostos e parcialmente absorvidos pelo empaste, mas seus vestígios impedem que o conjunto se transforme numa abstração integral. A pintura permanece num estado de tensão entre a singularidade das partes e a força unificadora do todo.

Na série Casa de Avó, essa tensão deixa o espaço público das multidões e ingressa na intimidade dos pequenos grupos. Reunidas em torno de mesas servidas, as figuras evocam ceias, festas, almoços e jantares preservados pela memória familiar. O ambiente doméstico introduz uma escala afetiva, mas não elimina a opressão da coletividade. A família acolhe, alimenta e produz pertencimento; ao mesmo tempo, estabelece hábitos, papéis e expectativas pelos quais cada indivíduo é reconhecido e conformado.

A mesa torna-se, assim, um dispositivo de reunião e distribuição. Organiza proximidades, posições e vínculos, enquanto a comida participa de uma memória partilhada. O grupo já não aparece como multidão anônima, mas como coletividade íntima, atravessada por afetos e pressões.

A obra de Arthur Arnold não se limita, portanto, a representar muitas pessoas. Seu problema está no instante em que a multiplicação modifica a condição da figura e no modo como a matéria pictórica dá existência a essa transformação. O indivíduo torna-se visível porque pertence a um conjunto, mas o conjunto só adquire forma porque repete, comprime e reorganiza indivíduos.

Entre massa, figura e empaste, memória íntima e comportamento coletivo, Arthur Arnold constrói uma pintura em que a forma social se torna sensível sem se converter em ilustração.

Vanessa Midori

A produção de Vanessa Midori nasce de uma atenção persistente às formas descontínuas da cidade. Durante seus deslocamentos por São Paulo, a artista observa e registra cenas, superfícies, fragmentos arquitetônicos e detalhes que, retirados do fluxo cotidiano, passam a constituir um repertório para a elaboração de suas obras. Seu interesse não se concentra na representação panorâmica do espaço urbano, mas naquilo que costuma escapar ao olhar apressado: encontros entre materiais, marcas de uso, sobreposições, sombras, ritmos construtivos e acidentes visuais.

Entre a observação e a pintura ocorre um processo de seleção, deslocamento e recomposição. A artista isola o fragmento de seu contexto imediato, modifica sua escala e reorganiza suas relações internas. A cidade passa a oferecer um princípio de construção, perceptível na descontinuidade das formas, na justaposição de planos e na convivência entre estruturas planejadas e configurações imprevistas.

Baseada em São Paulo, Vanessa Midori é formada em Arquitetura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Artes Plásticas pela Escola Panamericana de Arte e Design. Participa do grupo de estudos De Quebra, coordenado por Marcelo Salles na Casa Contemporânea. Formação que permitiu à artista relacionar um pensamento espacial e construtivo com a investigação da matéria, da superfície e da imagem.

A trajetória, contudo, não explica automaticamente sua produção. Nos trabalhos, o espaço urbano não aparece como conjunto monumental de edifícios, mas por meio de fragmentos, intervalos e articulações materiais. O olhar da artista se dirige menos à unidade da construção do que aos pontos em que essa unidade se rompe, revelando emendas, contrastes e diferenças.

Sua prática tem na pintura acrílica um de seus pontos de partida, mas se expande pelo uso da encáustica, de massas, assemblages e diferentes suportes. Essa abertura não representa apenas uma diversificação técnica. Cada material modifica o modo como a imagem se forma, recebe a luz e ocupa o espaço. A matéria participa do pensamento do trabalho e impede que a pintura seja compreendida como simples transferência de uma imagem previamente definida para uma superfície neutra.

Há uma correspondência entre esses procedimentos e o modo como a cidade se oferece à experiência. O espaço urbano também se constitui pela coexistência de materiais, funções e temporalidades diferentes. Superfícies planejadas recebem marcas de uso; estruturas antigas convivem com intervenções recentes; construções permanentes abrigam acontecimentos passageiros. Ao trabalhar com camadas, volumes e materiais agregados, Vanessa Midori reconstitui uma percepção individualizada da cidade.

Esse processo transforma igualmente a relação entre figuração e abstração. Os fragmentos urbanos podem conservar referências a lugares, objetos ou estruturas reconhecíveis, ainda que prescindam de identificação imediata. Linhas arquitetônicas tornam-se ritmos; sombras passam a organizar a composição; superfícies convertem-se em campos de cor; formas utilitárias adquirem autonomia pictórica. A abstração não decorre do abandono do mundo visível, mas da intensificação das relações encontradas nele.

Sua prática organiza-se, portanto, em três movimentos interdependentes: observar, registrar e reconstruir. Nela, o detalhe deixa de ser uma ocorrência passageira e passa a sustentar uma forma, sem perder inteiramente a memória do lugar e do percurso em que foi encontrado.

Arthur Arnold

©2026, Arthur Arnold. Todos os direitos reservados.

Privacy Preference Center