Textos

Em meio à multidão me perdi em mim

por Isabel Sanson Portella

Dra. em História e Crítica de Arte pela EBA/UFRJ. Coordenadora e Curadora da Galeria do Lago (Museu da República/IBRAM). Curadora da exposição ao ar Livre – Intervenções Urbanas Bradesco ArtRio 2015 e 2016 e da exposição Aquilo que nos une no Centro Cultural da Caixa Federal- São Paulo; das exposições acessíveis Arte pra Sentir que Aconteceu em 2018 nos Centros Culturais da Caixa Federal de São Paulo e Brasília

O fenômeno das massas é bastante complexo e instigante. Seus vários aspectos foram estudados ao longo dos anos, numa tentativa de decifrar as razões mais profundas dessas manifestações da humanidade. Somente na massa é possível ao homem libertar-se do temor do contato com o outro. Na massa ideal todos são iguais, os corpos comprimidos são um só e não existe o indivíduo com diferenças próprias. Arthur Arnold interessa-se pela identidade de grupo que dilui a individualidade, pelo comportamento do homem que se reúne em multidões por motivos diversos formando um gigantesco bloco com um comportamento único. Com espatuladas empastadas, raspadas e algumas pinceladas pontuais Arthur transforma indivíduos em tinta. Usa com precisão a espátula de pedreiro para alcançar efeitos que sua criatividade pede. Nada em suas telas é gratuito e cada uma é estudada e planejada visando a harmonia e a totalidade. Em algumas telas da série Massas podemos ver rostos, braços levantados, corpos colados sugerindo movimento e conclamação. Mas quase sempre o que predomina são pinceladas soltas e camadas de tinta criando texturas. A cor é um elemento forte e até quando o branco é utilizado mostra seu vigor e propósito. 

Na obra que nomeia a exposição, EM MEIO À MULTIDÃO ME PERDI EM MIM, o artista faz uma reflexão a cerca da massa passiva que segue repetindo modelos, que recebe, sem contestar, todo tipo de idéias. Passividade é o oposto de atividade e pode impedir a reação diante do que percebemos. Promessas futuras são forte argumento para impulsionar a multidão e fragilizar indivíduos. Na tela de grandes proporções, o movimento da marcha e os componentes dessa massa seguem numa mistura de formas e cores.  Arthur procura uma nova maneira de construção, incluindo não mais o registro, mas a dúvida. Não busca respostas, mas sim levantar questões, deixando ao espectador o entendimento e compreensão de suas propostas, assim como a oportunidade de fazer uma leitura crítica. A arte contemporânea muito se interessa por esses questionamentos permitindo que o artista se expresse de variadas formas e proporcionando uma maior visão de mundo.

Arthur Arnold

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